Ocorreu um erro neste gadget

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Estudar para que


23/03/2007
Carta da semana


ESTUDAR PaRA QUÊ? O QUE O FUTURO ME RESERVA?



"Este artigo tem como principal motivação uma dúvida que atormenta tantos estudantes: "Estudar para quê?" Por que devo ir à escola? Aonde irei chegar com os conhecimentos que me são legados através da educação? Todo o esforço que realizamos ao longo de vários anos que resultado tem para nossas vidas futuras?
Essa é uma questão que está na cabeça de nove em cada dez alunos que entram nas escolas brasileiras, principalmente a partir da 5ª série (ou 6º ano) do ensino fundamental. Coincidentemente, é a partir desse momento que esses alunos começam a perceber que a escola é sempre a mesma desde o momento em que nela entraram, ainda na educação infantil.
E é muito provável que essa dúvida surja em associação com o próprio descrédito que a instituição escolar passa a ter perante esses estudantes em virtude de seu imobilismo, falta de criatividade, desconexão com os acontecimentos do mundo e ausência de vigor e de maior interesse pela vida.
Acho, portanto, que essa questão levantada pelos estudantes direciona-se não só a eles mesmos, mas principalmente aos pais e educadores. É uma pergunta de inestimável valor. O que pretendemos fazer com nossas crianças, adolescentes e jovens que frequentam os bancos escolares durante períodos de 12 ou 15 anos?
Gostaria de me imaginar na pele de um menino ou de uma menina de 12 anos ou, quem sabe, até mesmo no auge da adolescência, aos 15 ou 16 anos... Influenciado pelos pais ou pelos professores, a resposta desse aluno(a) seria mais ou menos essa: "Estudo para que no futuro tenha condições de ter uma profissão e de me destacar dentro do ramo de trabalho que escolher".
Essa resposta, muito comum entre as ponderações dos estudantes, é dada com base em comentários, influências e sugestões de pais e professores. Seu caráter utilitarista indica uma tendência associada à própria lógica e dinâmica do mundo em que vivemos e do sistema sócio-econômico dominante, o capitalismo. Longe de mim utilizar o espaço para analisar as estruturas desse modo de produção. O que vale é a constatação de como há uma verdadeira camisa de força que nos indica os caminhos das escolhas profissionais desde a mais tenra idade.
Conheço casos de pais que desde as séries iniciais do ensino fundamental escolhem as escolas de seus filhos pensando na aprovação nos concorridos vestibulares das melhores universidades brasileiras para os cursos mais disputados, como medicina, direito, engenharia, administração. Não há nenhuma preocupação com a felicidade e a formação integral desses estudantes. E o que quero dizer com isso? Que carecemos de maior atenção aos aspectos humanizadores, aqueles que irão assentar as nossas relações com as outras pessoas e que, também, nos darão sustentação emocional e intelectual para compreender o mundo em que estamos inseridos.
Afinal de contas, de que adianta formar médicos, advogados ou engenheiros que conhecem muito de suas áreas de trabalho e que tecnicamente são impecáveis, se esses profissionais não são capazes de comunicar-se, interagir, respeitar e legar ao próximo (e a si mesmos) o valor, a dignidade, a simpatia e a felicidade? De que adianta a vida sem sensibilidade? Onde reside a felicidade se ela não está nas relações que estabelecemos com o mundo e com as pessoas? Não adianta apenas o domínio da técnica se não falamos ao coração, se não atingimos a alma.
O que se vê é um distanciamento entre a sala de aula e as ruas, a vida, as pessoas, os acontecimentos do dia-a-dia. Matemática que ensina tendo por base os mercados onde as famílias fazem suas compras; história ensinada nas praças públicas, no contato com as pessoas de mais idade, no exame do nome dado a ruas; português aprendido com o auxílio da música, do teatro ou de jornais diários; geografia entendida pelo passeio e observação dos processos produtivos ou das características naturais de um ambiente a partir de visitações; em suma, a escola precisa do mundo para se mostrar viva, atraente, envolvente e significativa para os estudantes.
Tornar a escola um espaço em que há uma preocupação demasiada com a formação profissional, o mercado de trabalho, o conforto futuro que todos desejam ter e a possibilidade de ter uma conta bancária polpuda não pode nunca ser o principal objetivo da sociedade e da educação. E, em muitos casos, é isso exatamente que está acontecendo. Trata-se de uma enorme irresponsabilidade de todos aqueles que são artífices e cúmplices desses acontecimentos.
A escola deve emancipar. A educação deve dar asas. Os professores têm que incentivar o espírito científico. Nas salas de aula temos que ensinar ética, respeito, civilidade. O ser humano íntegro, seguro, confiante e feliz deve ser o objetivo maior de todo e qualquer processo e realização educacional. Desse modo teríamos então respondido de um modo mais do que satisfatório à pergunta que inicia essa reflexão...",
João Luís Almeida Machado, professor universitário - profjoaoluis@planetaeducacao.com.br
CIDADÃO JORNALISTA é um espaço destinado aos leitores e ouvintes que ao relatarem fatos e experiências de sua cidade, comunidade e cotidiano, tornam-se repórteres por um momento.
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário